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quinta-feira, 5 de maio de 2011

O jeito cristão de fazer política

Evandro Bonfim *

No próximo domingo, dia 03 de outubro, os brasileiros vão às urnas para escolherem prefeitos e vereadores dos municípios do país. Em termos mais amplos, as eleições municipais podem significar a consolidação do modelo político instaurado pelo Partido dos Trabalhadores com a chegada de Luís Inácio Lula da Silva ao governo em 2003. Os resultados das votações deste ano serão cruciais para as estratégias a médio prazo da esquerda brasileira, como a manutenção de alianças e a possibilidade de reeleição do atual presidente.

No entanto, outros setores da sociedade brasileira também estão atentos a este pleito, como o campo religioso, em especial as múltiplas vertentes de igrejas cristãs. Para o cristianismo que identifica o fundador do credo como se posicionando ativamente ao lado de pessoas em situação de miséria e opressão, a trajetória de Lula parece ser bastante afim deste "jeito cristão de fazer política". Imigrante, operário, derrotado três vezes por candidatos pertencentes à elite (Fernando Collor, de tradicional família nordestina, Fernando Henrique Cardoso, renomado acadêmico), Lula possuiria um perfil privilegiado para fazer com que esta perspectiva se concretizasse, e o apoio de movimentos que reforçam o cunho "libertário" e "profético" da mensagem cristã se faria essencial neste momento de definições políticas importantes.

"Penso que não seria correto a igreja apoiar um partido determinado, mas esta também não pode ficar neutra, mas deve ajudar o povo pobre a ter os critérios para escolher seus candidatos", afirma o monge beneditino Marcelo Barros. Para o irmão Barros, o trabalho político da igreja deve se concentrar na educação da população, por fornecer elementos para que o voto deixe de ser moeda do clientelismo e se torne expressão de tomada de consciência social. Neste tocante, a recente nota da Confederação Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) sobre as eleições municipais, com as tradicionais recomendações de analisar o programa do candidato ou de não vender o voto, serve de exemplo deste papel educativo de instâncias como a Igreja Católica.

Os diversos espaços de atuação política

Apreciação similar parece ser compartilhada, Júlia Miranda, professora que coordena o Núcleo de Estudos de Religião, Cultura e Política da Universidade Federal do Ceará. "Para fazer política um padre (ou religioso de outra denominação) não precisa ter cargo no legislativo ou executivo. Aliás, penso que o melhor mesmo seria não buscá-lo - sobretudo se construída essa candidatura com base na respectiva pertença religiosa - e deixando que a política partidária se faça dentro dos princípios do laicismo", comenta.

O irmão Barros fornece um exemplo de como ser agente político atuante sem recair em preferências partidárias. "Através da Comissão Justiça e Paz, a CNBB contribuiu com o aprimoramento da lei eleitoral, conseguindo as assinaturas populares necessárias para a aprovação da lei que proíbe e pune a venda de votos e outras", assinala. Outras iniciativas desta mesma natureza como a promoção anual da Campanha da Fraternidade e do Grito dos Excluídos com apoio de outras igrejas cristãs poderia ser arrolado dentre as formas recomendáveis da religião se manter ativa como agente social, político e até mesmo como expressão da fé.

Os interesses corporativos das igrejas

"A presença crescente nas eleições brasileiras, de candidatos identificados com igrejas as mais diversas é inquietante sob vários aspectos. Ela coloca questões polêmicas como, por exemplo, a adequação da formação religiosa para a prática da política partidária, a ação política vinculada a interesses corporativos religiosos e os mandamentos divinos orientando decisões relativas à vida pública e privada dos cidadãos", adverte Júlia Miranda, que realizou pesquisas sobre candidaturas de membros da Renovação Carismática Católica construídas com esta identidade religiosa.

A ação carismática conteve em certa medida a migração de fiéis católicos para as chamadas denominações evangélicas, fato que a hierarquia e outros setores menos ortodoxos da igreja romana não podem ignorar. Assim, tem-se outra imbricação entre o religioso e o político que não costuma ser assinalada: a igreja, como qualquer outra instituição humana, possui interesses e está envolvida em disputas em relação aos quais o poder político se constitui elemento importante para a consecução de objetivos corporativos.

O irmão Barros chama atenção para este mesmo ponto, colocando que o partidarismo e a exposição à tentação de usar cargos públicos para interesses organizacionais e privados são os limites da atuação política das igrejas. "A CNBB deve continuar a elaborar cartilhas e a ser clara em denunciar candidatos que se aproveitam da Política para seus interesses privados. O importante é que não seja lobby em favor dos interesses da própria Igreja, como fazem alguns grupos neo-pentecostais e sim um processo educativo para servir ao povo" argumenta.

"Em alguns casos, crentes de determinados  grupos religiosos votam em pessoas do seu grupo não para servir ao povo e sim para atender aos interesses do próprio grupo", acrescenta. O religioso católico parece se referir a casos como o do bispo Marcelo Crivella (Partido Liberal), que se disputa a prefeitura do Rio de Janeiro no esteio de projetos sociais desenvolvidos pela Igreja Universal do Reino de Deus e em um ano de mandato como senador. Crivella está sendo severamente criticado e acusado por outros concorrentes à prefeitura carioca de estar misturando "religião com política".

"O campo da política partidária não parece ser o mais adequado à `concorrênciá` entre denominações que vem caracterizando o Brasil desse pluralismo religioso relativamente recente e complexo", complementa Júlia Miranda. Mas já no caso da Igreja Católica brasileira, que não costuma lançar sacerdotes candidatos, mas que está intimamente envolvida em projetos sócio-políticos como o Fome Zero do Governo Lula (que conta com um eclesiástico, Frei Betto, como assessor especial), os critérios expostos acima não chegam a tomar força de acusação como no caso dos evangélicos.

No entanto, se a religião não pode ignorar a política, a recíproca também tem se tornado cada vez mais verdadeira. A nota da CNNB aponta como critério válido para a escolha do candidato a atenção dada por ele ao pluralismo religioso da sociedade nacional.  "O Brasil é uma sociedade pluralista e dentro desta pluralidade, as diferentes tradições religiosas têm uma importância fundamental. É importante que elas todas se sintam envolvidas no projeto de construir uma sociedade mais justa e fraterna", explica o irmão Barros.

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